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Andresa Augstroze   |  Brasília, DF

Transiterritorialidades - Limiar

“ Transiterritorialidades - Limiar" é uma série que reflete uma extensa pesquisa sobre como as transgressões da arte contemporânea e as mestiçagens conceituais compuseram uma reflexão artística ainda marcada por questionamentos cartográficos. A partir de uma experiência pessoal de deslocamento territorial extra-urbano vivido pela artista e concomitantemente, de um deslocamento poético, surge a necessidade de questionar os limites do fazer artístico e das fronteiras impostas pela nacionalidade, que não mais suprem uma identidade particular delimitada. Definir e limitar, ou seja, traçar uma identidade (que é delinear, tornar algo absoluto, incontestável, verdadeiro - no sentido menos descartes-iano da palavra- o que invoca pureza e ainda, justamente definida pelo dicionário como 1. qualidade do que é idêntico; 2. conjunto de características que distinguem uma pessoa ou uma coisa e por meio das quais é possível individualizá-la) se torna intransponível ao analisar algumas das conjunturas contemporâneas da arte, e principalmente ao expor o diálogo do fazer artístico e do pensar fotográfico. A expressão do "fazer artístico" já carrega consigo uma colocação antagônica à definição, de modo geral. Ao adotá-la como conceito, sua utilização refere-se às linguagens artísticas, todas elas, excluindo a necessidade de nomear o que é o que. Entretanto, ao tomar o fotográfico contemporâneo como postura, e não como uma linguagem que tem uma existência descrita por uma história confusa, que tanto tentou se definir para conseguir se afirmar como arte, o fazer artístico aparece nele de forma infalível, à medida que se dissolvem as fronteiras do que é esse fotográfico e que se assume, como que aceita uma possibilidade metalinguística decorrente disso. A identidade, quando definida, se apresenta sempre como algo puro, individual. A postura contemporânea, o pensar fotográfico e o fazer artístico se relacionam com experiências híbridas, da mesma forma com que o hibridismo, ou melhor, que o mestiço, não admite pureza e nem individualidade. A mestiçagem é discutida de forma particular em diversas áreas do conhecimento, e detém especificidades de acordo com seu caráter biológico, sociológico, geográfico, linguístico, cultural, filosófico, musical, artístico, entre outros, mas de um modo mais geral é um conceito incompreendido. Incompreendido ou mal compreendido, a partir de que, em um estado inicial se supõe que existem elementos puros, e que ao se fundirem esses formam um elemento impuro, heterogêneo e que transmite uma segregação quanto às suas origens. A mestiçagem entretanto, ao ser estudada, porém nunca compreendida totalmente, como ponderam François Laplantine e Alexis Nouss, se revela como um múltiplo, que é irredutível à soma de seus componentes, os quais guardam sua integridade. Não se fundem e nem se anulam, apenas são, são de forma que sempre há a confrontação e o diálogo entre eles, se transformando eternamente, em algo único. Único, mas não de forma individual, e sim múltipla. Único, não puro. Essa reflexão se estende de forma geral, sim, mas também de forma biográfica, para o trabalho. Nele, a abolição da pureza e a dissolução das fronteiras que a postura contemporânea introduz no fotográfico é também introduzida como uma dissolução do eu (a complexidade do self de forma atrelada à psicologia, ao pensar no confrontamento do mestiço) e o questionamento de limites e divisas (em uma perspectiva cartográfica, ao perceber a insuficiência da nacionalidade e do pertencimento em traduzir essas identidades plurais) baseados na experiência da artista. Ao introduzir especificidades que transgridem o limite, ou melhor, que exploram as permissividades do fotográfico, há a combinação de imagens, justapondo-as, borrando-as, fazendo-as lembrar outras linguagens tanto quanto utilizando-as. Sendo assim, para expressar essas reflexões, a conclusão é de que o fotográfico se traduz em um fazer artístico extenso e ilimitado, e nada mais necessita a não ser disso.