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Laura Moreira  |  Porto Alegre, RS

Todos os contornos são terrivelmente incompletos

O corpo monstruoso é um corpo cultural, espelho do que rejeitamos. Os monstros, sempre ocupando o lugar do Outro, nos provocam a partir da diferença, mas também por seu impronunciável contrário: a semelhança. Frutos podres e poderosos do imaginário, são figuras discursivas que, ao mesmo tempo, cerceiam e ultrapassam os limites — do possível, do verdadeiro, do tolerável, da identidade. O projeto inscrito é um recorte de uma pesquisa, iniciada em 2016, sobre a relação entre monstruosidade e culturas. Neste trabalho, utilizamos duas obras: o "Dicionário de Folclore Brasileiro", de Câmara Cascudo, e "O Livro dos Seres Imaginários", de Jorge Luís Borges. O projeto conta com a participação e co-autoria dos performers Giorgia Fiorini e Eduardo d’Avila. Selecionamos histórias e seres das obras e trabalhamos a partir de estados performáticos para vivenciar e dar forma à instabilidade, às tensões e às múltiplas manifestações desses seres. Através do corpóreo, buscamos expressar essa vivência, cientes de que esse exercício não aprisiona seus significados. Assim, as imagens não formam apenas uma narrativa, mas uma rede heterogênea de símbolos, histórias e sensações criados para dar sentido à experiência humana, constituindo o imaginário. O título do trabalho faz menção ao contorno enquanto uma marca que delimita um corpo, uma figura, um território. “Todos os contornos são terrivelmente incompletos” pois sempre há a incorporação do Fora que se origina no Dentro, uma fenda na qual ocorrem trocas, transformações e tensões — e é nesse limiar que habitam os monstros e seres imaginários.