Junior Franco  |  Niterói, RJ

Vida imaginária.

Na antiguidade, Platão já defendeu o banimento da classe artística no seu ideal de República. O artista com sua possibilidade de recriação e adaptação seria um falseador da realidade. Se o mundo perfeito estava nas ideias, o mundo como o conhecemos seria, em si, uma cópia imperfeita. E o mundo reproduzido pelo artista, em seu ofício, seria então a cópia da cópia: a imperfeição da imperfeição. Passados mais de vinte séculos, embora o mito da razão platônica tenha sido relativizado, há quem continue torcendo o nariz para o artista talvez exatamente por suas características de subverter a ordem posta, criar alternativas para sua expressão e relacionar-se sempre. Vida Imaginária é a saída que encontrei, em meu processo criativo fotográfico, frente às im(?)possibilidades advindas do confinamento imposto pelas políticas sanitárias de combate a Covid-19. A arte é sempre relacional, já disse o teórico e crítico de arte Nicolas Bourriaud. Então se o artista não para de criar, mesmo isolado, sem contato com o mundo externo nem com as pessoas lá fora, ele propõe outras formas de criação e, consequentemente, de relação. Deste modo é que Vida Imaginária propõe o olhar e as relações possíveis no momento presente. Se as circunstâncias de uma pandemia têm ensejado a proliferação de lives (artísticas ou não) nas redes sociais, percebemos que as artes performativas não se inibiram e não interromperam seu fluxo, ao contrário: tem se reinventado. Da mesma forma o fotógrafo, em seu casulo, vai tecendo seus novos fios condutores de acesso ao outro, através da sua lente, do seu desejo de chegar a lugares hoje quase utópicos. O olhar do fotógrafo sempre foi a sua lente; o seu ângulo é a sua medida. Neste projeto, lanço mão de toys – na figura do Lego, que tem marcado gerações após gerações - enquanto simulacro do desejo de circular livremente pelas ruas e clicar manifestações culturais, eventos esportivos, encontros despretensiosos de amigos ou as invisibilidades urbanas do cotidiano. O toy é a ressignificação da relação com o outro que continua regendo os anseios, as perspectivas, as trajetórias sutis do artista. Se as circunstâncias impõem reclusão, então a lente do fotógrafo subverte o impossível e propõe outras, novas e inesperadas perspectivas. A série conta com 10 imagens monocromáticas, anteriores ao momento atual, em que estar em contato com pessoas, ou apenas circular desprevenido pela rua, com a câmera a tiracolo, era mais uma forma de criação. A partir destas imagens, personifico no objeto do toy meus anseios enquanto fotógrafo por viagens, conversas, ar livre, rua aberta, liberdade. A opção pela imagem monocromática traduz a atmosfera onírica do seu idealizador, que, apesar de nostálgico, transforma suas angústias. As lembranças e saudades se transformam no desafio deste novo trabalho em que convida o público ao diálogo, provocando alguns questionamentos: Há impossibilidades para a arte? Quais as novas formas de performances e existências surgem frente à solidão da quarentena e da política do isolamento? Quão sozinhos estamos, se o nosso anseio por liberdade é coletivo?