Gustavo Minas  |  Brasília, DF

Paisagem Líquida

A fotografia é cheia de impossibilidades que nós, fotógrafos, tentamos superar. Uma delas é o desafio de transmitir sensações sobre o que é estar presente num certo lugar, ou como representar essa atmosfera. Surge dessas impossibilidades minha obsessão com reflexos na fotografia. O estalo veio num dia nublado em Brasília, quando tentei fotografar um motorista de um ônibus ao volante, entrando no terminal, e acabei unindo à sua imagem os reflexos dos passageiros, na plataforma superior, e as nuvens, que refletidas no vidro do veículo poderiam passar também por fumaça. Me dei conta de que, fotografando superfícies reflexivas, eu poderia registrar não só o que estava na minha frente, mas também atrás e, às vezes, ao lado, criando imagens que dão mais conta de representar o que é estar envolvido no caos imagético e de sensações de uma grande cidade. Essa obsessão só cresceu ao perceber que, à medida que eu me aproximava dos vidros, novas imagens se formavam e se desmanchavam a cada passo e a cada segundo, criando relações entre objetos e pessoas fotografados que só existiram por um instante. Essas imagens efêmeras, unindo realidades paralelas e por vezes distantes, também funcionam como metáforas para as bases solúveis do mundo de hoje, que geram desorientação e um constante senso de deslocamento ao se desmancharem constantemente. O título do ensaio faz referência ao termo "modernidade líquida", cunhado pelo filósofo Zygmunt Bauman (1925-2017) para definir o mundo globalizado e sua sociedade fluida, em constante movimento e imprevisível. As fotos foram feitas em cidades como Brasília, Madrid, Paris, Hamburgo, Lisboa, Nova York e Miami, entre 2017 e 2020.