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Edilson Pereira  |  Rio de Janeiro, RJ

Passagens

O ensaio é inspirado na singular trajetória de um homem exilado de seu país e cuja morte ocorreu em uma situação de fronteira. A vida de Walter Benjamin, bem como sua obra, nos levam a pensar nos efeitos das fronteiras nacionais, politicamente demarcadas, e também daquelas que separam memória e esquecimento, a humanidade e a sua negação. E levantam a questão: como tornar presente o que não há mais? Na região montanhosa dos Pirineus, entre o sul da França e a região da Catalunha, Espanha, encontramos o monumento das Passagens, em homenagem ao filósofo alemão. Local onde a verticalidade topográfica contrasta com o horizonte do mar Mediterrâneo em conjunção com o céu de mesma cor. Tons de azul infinito. No contexto de eclosão da 2a Guerra, em 1939, Benjamin e outros milhares de refugiados judeus que viviam na França passaram a ser considerados “suspeitos”, muitos deles sendo internados em “campos dos trabalhadores voluntários”. Benjamin passara quatro meses em um desses campos, ao sudoeste de Paris. Com a saúde fragilizada e sem recursos financeiros, ele adoece gradativamente. Com a ocupação da França pelos nazistas em 1940, Benjamin foge para o sul do país, na esperança de alcançar liberdade através de um possível exílio nos EUA. Em 26 de setembro de 1940, ele e os demais fugitivos de guerra chegam à cidade espanhola de Portbou, mas encontram a fronteira fechada. Os guardas locais impedem sua passagem e dizem que, no dia seguinte, eles teriam que retornar à França – o que representava, então, ser entregue aos alemães. Naquela noite, afetado por toda a perseguição vivida até ali e pela falta de horizonte para seguir, Benjamin se suicidaria. Segundo a tradição judaica, o corpo dos seus mortos deve passar por um funeral apropriado, pois o ele conserva a alma – que não descansa enquanto o corpo não for devidamente preparado, purificado e enterrado. O suicídio, porém, coloca um problema teológico frente ao corpo morto: ao violar a vontade de Deus, que dá e que seria o único autorizado a tirar a vida, o suicida se torna um corpo marginalizado, enterrado em regiões periféricas de um cemitério judaico, não em seu centro. Alienado de sua terra, tanto vivo, quanto morto. Em Portbou, as fronteiras políticas que desumanizam se sobrepuseram às religiosas. O corpo Benjamin foi levado ao cemitério católico – o único da cidade – e depositado em uma gaveta funerária sem seu nome. Passagem entre entre a vida de um homem singular e a morte que apaga sua individualidade. Um número qualquer riscado sobre uma lápide igual a tantas outras. Anos mais tarde, a filósofa Hannah Arendt vai atrás dos vestígios de Benjamin. Ela chega ao cemitério em Portbou e não encontra nenhuma lápide ou objeto que faça menção a ele. O pensador, o estrangeiro, o perseguido de guerra que escreveu sobre a memória e a História esvanecera. Vai ser precisamente nesse local de apagamento que se construirá, nos anos 1990, o monumento das Passagens, título homônimo à obra póstuma de Benjamin, produzida pela reunião de inúmeros escritos, notas, pensamentos, frases soltas. Uma constelação. Obra do artista judeu Dani Karavan, o monumento possui três partes diferentes entre si, mas todas próximas ao cemitério citado. A parte maior, primeiramente, constitui-se de um túnel com degraus de ferro que atravessa diagonalmente a colina junto ao mar. Quem entra no túnel desce os degraus, mas o acesso à água do Mediterrâneo é interrompido por uma placa de vidro que encerra o caminho com dizeres de Benjamin: “É mais difícil honrar a memória dos sem nome do que a dos homens famosos”. A segunda parte do monumento constitui-se de um pequeno número de degraus, estes a céu aberto, dando acesso às trilhas feitas pelas montanhas dos Pirineus, por onde tantos fugitivos chegavam ali no passado. A terceira parte, imediatamente acima do cemitério de Portbou, constitui-se de um quadrado de ferro sobre o solo no qual há uma plataforma menor, também quadrada. Ao sentar-se nela, o espectador tem a vista azul da paisagem entrecortada por uma tela de arame. A fronteira ainda persiste. Degraus, subidas e atravessamentos da topografia, fazem com que o monumento evoque, na experiência corporal de quem interage com ele, as passagens entre o interior e exterior, entre luz e sombra, entre dentro e fora. Um conhecimento sensível, portanto, se dá no local que, por sua disposição geográfica singular, impede a captura do monumento como uma unidade que caiba em um único registro fotográfico. São necessariamente partes, pedaços de uma história que só se completa presencialmente. Não lidamos com uma obra de arte, portanto, mas com uma obra de fronteira – exprimindo a ambiguidade comum às zonas liminares, onde coexistem o horizonte e a interdição da passagem, apagamento e reconstituição da memória. As fotografias do ensaio resultam da experiência de ser mais um corpo estrangeiro (brasileiro) que se colocou em relação visual e fenomenológica com a paisagem que o próprio monumento integra. Caminhar pelo local, perceber suas pequenas nuances, foi a condição necessária para se constituir um diário particular. As imagens tentam, em momento recente, acessar o passado que transcende ao olhar à primeira vista. A beleza do horizonte oculta a terrível dor de tantos homens e mulheres atravessados pela interdição e por diversas passagens.