Luiz Baltar  |  Rio de Janeiro, RJ

ANOMIA / Urbs_opsis

Toda história da humanidade até o início do século XX teria sido, mais ou menos, constituída de 7 bilhões de seres humanos. Nós, ao final do século XX e início do XXI, temos 7 bilhões habitantes na Terra. É como se todos os indivíduos nascidos nos milhares de anos de nossa história estivessem vivendo ao mesmo tempo agora. Também nunca se viveu tanto. A média de expectativa de vida no mundo gira em torno de 66,5 anos. Em países desenvolvidos como o Japão chega a 87 anos, mas nem por isso somos capazes de extrair um átomo de conceito de felicidade. Viver mais e com mais pessoas não nos tornou pessoas mais felizes e mais livres. “O dinheiro é mais livre que as pessoas. As pessoas estão a serviço das coisas.” Eduardo Galeano Somos uma massa de seres cobrindo quase todos os cantos do planeta, vivendo mais tempo, consumindo recursos e acumulando resíduos em um ritmo insustentável.

Para o filósofo Theodore Adorno, um crítico da degradação gerada pelo capitalismo e um dos autores mais perspicazes em entender o século XX, pela primeira vez a humanidade teve noção da possibilidade do seu fim, com as guerras, os campos de concentração e a bomba nuclear. Mesmo afastado o perigo eminente de um holocausto nuclear, continuamos ameaçando a vida no planeta. 

“O tecido do progresso é feito de sofrimento real, que não diminui na proporção do aumento dos meios para suprimi-lo" Adorno O projeto Anomia nasceu desse questionamento e de um sentimento profundo de desânimo com o futuro. Ganhou uma nova motivação com o crime ambiental da mineradora Samarco, que devastou comunidades inteiras em Mariana, matando moradores e o Rio Doce na maior tragédia ecológica do país. Com esse trabalho quero falar de excesso e acumulação, entre outros sintomas da vida dentro do sistema capitalista, no qual o consumo é estruturador de valores e define identidades. As paisagens construídas são como mostras de tecidos doentes. Cada imagem é como uma lâmina, a biopsia visual de um colapso.