Marcia Charnizon  |  Belo Horizonte, MG

Caça às Palavras

Como retratar e denunciar os reflexos da pandemia nas relações humanas sem se deparar com a violência contra a mulher? Antes de uma agressão física e até chegar ao feminicídio, existe uma violência oculta – a violência do discurso. Compreendendo que um ato violento é um ato de destituição de protagonismo, esse trabalho procura romper o silêncio, reunindo mulheres, acima de 50 anos, que como protagonistas de suas histórias, se despem, cada uma a seu modo, e mostram suas marcas a partir de frases violentas que fizeram parte de suas trajetórias. Cada uma das fotografias é o capítulo de uma história, em muitas das quais outras mulheres se reconhecem, com discursos machistas, racistas e misóginos, normalizados e normatizados, que refletem o modus operandi da nossa sociedade, e onde essa dinâmica se transforma em gatilhos de violência (sequer reconhecidos como tal) nas nossas relações sociais. Como numa luz vermelha de um laboratório fotográfico, em que as imagens latentes se revelam, o que não se vê a olho nu, aparece nos corpos nus, nesse jogo de caça – palavras. Dados da violência: Durante a pandemia os índices de violência contra a mulher aumentaram em várias partes do mundo. Fazendo um recorte em Minas Gerais, de acordo com a Policia Civil -MG, de jan a maio de 2020 foram registradas 60.806 queixas, sendo que BH supera mais de mil casos por mês, desde 2018. Apenas no primeiro semestre de 2019, 75.000 mulheres mineiras notificaram que foram vítimas de algum tipo de violência doméstica. As violências que mais se destacam são a violência física e a violência psicológica.