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Mateus Bruxel  |  Porto Alegre, RS

Um Conto Haitiano

A jornada é uma estratégia bastante utilizada como recurso narrativo. O personagem se transforma, evolui e nunca acaba do mesmo jeito que começou. Um conto pode ser um relato breve e conciso ou um relato intencionalmente falso e enganoso. Como escreve o teórico André Rouillé, no livro A fotografia: entre documento e arte contemporânea: “o menor enquadramento é ao mesmo tempo inclusão e exclusão, que o mais ordinário ponto de vista é tomada de posição, que o registro mais espontâneo é construção”. Desastres naturais, crise econômica e política fizeram com que milhares de haitianos deixassem o país caribenho para buscar uma vida melhor no Brasil. Em 2015, viajei ao Acre para produzir uma reportagem sobre o crescente fluxo migratório na fronteira com o Peru e a Bolívia. Foram diversos dias de cobertura e contato com muitas histórias e personagens, que culminaram no retorno em uma viagem de ônibus com um grupo de imigrantes haitianos de Rio Branco (AC) para São Paulo (SP). Desde então, passei a acompanhar atentamente esses deslocamentos humanos e seus desdobramentos no país, interessado em compreender os fluxos através de fronteiras dissolvidas e continuidades rompidas. Em 2019, reencontrei um dos personagens que conheci no Acre vivendo em Porto Alegre. No nosso reencontro, após anos sem contato, soube que ele decidiu vir para o sul por ter conhecido a equipe de reportagem. As imagens deste ensaio, produzidas em 2015 entre o Acre e o caminho até São Paulo, atravessando diversos estados, serviram para reavivar memórias, trazer de volta lembranças e foram ponto de partida para um filme desenvolvido durante a residência artística do FestFoto 2019 (Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre).