Manuela Leite  |  São Paulo, SP

Prisão Domiciliar

“Prisão Domiciliar”, é um projeto onde, por meio de autorretratos, documento minha própria rotina diária dominada por serviços domésticos, e, em seguida, tomo-os por base para fabular as questões plúmbeas que, a exemplo dos alquimistas medievais (licença poética), poderiam ser transformadas em chave de ouro para a abrir o cativeiro de uma vida amestrada. Experimentos dessa categoria, de natureza poética visual, são os meios que usei para inflectir caminhos pré-determinados e torná-los desviantes da "predestinação" das mulheres, na cultura ocidental. São formas expressivas visuais de questionar esse lugar-comum na cultura ocidental voltando-o contra si próprio. Assim, componho ensaios visuais como fotógrafa/dona de casa, ou dona de casa/fotógrafa, dividida entre o universo doméstico, caótico ou organizado, que angustia, por um lado, e depois, por outro, busca a superação de dicotomias que caracterizam o tecido dessa realidade estereotipada - procuro traduzir uma forma de liberação dessa clausura que, opressiva, tem sido, desde a aurora da humanidade, a mais significativa expressão da casa, aquela que nos abriga das múltiplas adversidades que, invisíveis, nos espreitam. Esta instituição, "nossa própria casa", "Prisão Domiciliar", diz respeito ao referencial problemático dessa mulher, em estado prisioneiro, que se afoga lentamente em uma cultura impregnada por formas apáticas e conservadoras de sentir, pensar, e existir, que a sufoca e limita seu desenvolvimento quanto à processos que poderiam exceder essa repartição em duplos. Venho realizando tais experimentos, por meio de operações poéticas visuais que, através do recurso da repetição e multiplicação de imagens, criam dobras entre dobras, para intensificar a sensação de um "eterno retorno" que poderia ser, simultaneamente, do mesmo e do outro, ou ainda, um "eterno retorno" da diferença que parece ressoar o mesmo, uma espécie de "paradoxo sensível". Com essas sequências repetitivas de imagens pretendo dar expressão a um acontecimento de ordem trágica, invisível, e silencioso.