Fernando Braune  |  Niterói, RJ

LUIS JUSTINO - O REFLEXO AGUDO DE UMA SOCIEDADE

LUIS JUSTINO- O AGUDO REFLEXO DE UMA SOCIEDADE Há anos desenvolvo ensaios fotográficos e participo ativamente da vida dos moradores da Comunidade da “Grota do Surucucu”, em Niterói. Nessa comunidade, houve o desenvolvimento de projetos culturais de extremo alcance para a comunidade, dentre eles, a criação da “Orquestra de Cordas da Grota”, composta somente por jovens da comunidade, os quais teriam poucas chances de socialização em nossa sociedade segregada, caso a orquestra não existisse. No final de setembro de 2020, em meio à pandemia do “coronavírus”, um dos membros da orquestra, o jovem Luiz Carlos Justino, ao retornar de uma apresentação, foi abordado na rua por policiais que o levaram para a delegacia e o prenderam posteriormente, por algo acontecido há anos, sem nada ter a ver com ele, quando ficou provado que, no momento do delito, ele se apresentava junto com amigos em um compromisso com agenda constante. Quatro dias encarcerado, em uma cela com dezenas de presidiários, sem saber o motivo, sem qualquer passagem policial e de bons antecedentes, foi o suficiente para mais uma hora de revisão de uma das maiores tragédias de nossa história, que se desdobra sistemicamente, até os dias de hoje: a “escravidão”. A escravidão produziu a cultura da humilhação e tortura sociais, onde, a partir do profundo corte, exclusão de seu convívio, de sua esfera de relacionamentos, o escravo perdeu todo seu patrimônio social, a autoridade sobre a sua própria vida, a sua autonomia como um ser “humano”. Vivemos, ainda hoje, assolados pela problemática da marginalidade daqueles que não são assimilados pelas políticas da cidade, sem o direito à palavra, à dignidade humana, sem qualquer legitimidade de seu testemunho, traços de desdobramento e reflexo da escravidão, que fazem permanecer a vergonha diária em nossas vidas. As chagas da escravidão no Brasil jamais sairão de nossas almas, nos colocando eternamente à sombra da “morte social” de um povo.