Ygor Landarin  |  Rio de Janeiro., RJ

Desterros.

Anseio as primeiras palavras de maneira singela e informal. Gostaria de apresentar este projeto e dizer, sobretudo, que ser raiz é trabalhoso, mas gratificante. Subterrâneas, aéreas ou aquáticas, é preciso muita força e determinação para crescer rasgando a terra, afogando-se em mar ou rastejando-se em ventos turbulentos. Ser e estar nunca me pareceu tão complicado. Partindo desta relação, busco compor uma analogia da minha autobiografia com este agente poético, as raízes. Pertencimento sempre foi um conceito distante, assim como os lugares que um dia foram cruzados e deixados para trás. O nascimento em Uruguaiana –RS, a ida para Florianópolis –SC com apenas um ano de idade e, posteriormente, uma longa caminhada até o Rio de Janeiro fazem a travessia parecer sempre mais interessante, mesmo que dolorosa e, às vezes, involuntária. Por isso, arrisco-me a dizer que esta pode ser uma carta de amor, que contempla da maneira mais doce a vontade de desbravar os territórios sombrios existentes na dúvida de onde vim, mesmo sabendo que, para isso, é preciso ser raiz em muitos lugares. O lugar do entre, sempre muito espantoso e incerto para alguns, embala e acode ao ser percebido como mais um cruzamento. O outro lado, aqui ou lá, dentro ou fora, não faz mais sentido para uma raiz solta. Ela pode, e deve, ser raiz em qualquer lugar. Em botânica, por exemplo, existe um fenômeno interessante conhecido como rizoma, uma raiz que cresce horizontalmente, mas também, que nega sua estrutura rígida e se desenvolve como uma trama, florescendo, brotando e desabrochando em qualquer lugar. E, assim como o rizoma serve de fonte nutritiva para as plantas que se conectam a ele, é preciso me alimentar das memórias e raízes que venho colhendo aos poucos durante toda travessia. Pode ser que um dia encontre um lugar para fincar todas as raízes que carrego nos pés, pode ser, também, que esse lugar resida em alguém ou algo. Mas, por ora, pode ser percebido nesta série, nas raízes que brotam dos tecidos, nas fotografias dos pés de meus pais ou nas paisagens das lembranças mais calorosas, em imagens que me remetem à uma arqueologia sensível. Vejo nisso tudo, novamente, a rede que construí enquanto raiz solta, como uma trama do tempo onde brotam lembranças de diversos lugares. Uma sobreposição à deriva. Termino, portanto, relembrando a cidade onde passei maior parte da vida, Florianópolis, que antes de ser chamada assim, era conhecida como Desterro. Desterros aqui me parece uma metáfora. Esperando profundamente que continue radicando, penetrando e cravando novas terras, águas e ares, desterrando quem me toca e fazendo com que sejam abraçados pelo conjunto de histórias e afetos. O desterrar nunca se apresentou de maneira tão entusiasmada como percebo agora, sobre ser e estar em qualquer lugar, carregando meus caminhos em meus pés.