Juliana  |  Brasília, DF

Dança com as sombras

A pandemia e o isolamento social nos forçaram a ficar na nossa própria companhia. Estarmos sozinhos com nós mesmos nem sempre é fácil. Nos deparamos com sombras, com angústias, com dificuldades que, às vezes, a correria do dia a dia esconde. Durante o isolamento social, meu trabalho se voltou para dentro, através dos autorretratos. Olhar pra mim mesma nas fotos é como me olhar num espelho muito cru e honesto sobre tudo o que me compõe – as alegrias e também as falhas e dores. E lidar com essa parte que dói não é simples, mas é possível. Somos muitos e muito diversos e o que nos habita é tanto sombra quanto luz. E o que está à sombra não necessariamente é ruim, está apenas oculto. Entender quem somos nesse reflexo de nós mesmos é quase como uma dança com tudo o que somos. Trazer a luz o que está à sombra, ocultar o que sempre aparece, desenhando novas formas de ser e de estar no mundo. Olhando pra nós mesmos ora com reverência e amor, ora com temor e cautela. Entendendo que somos um, ainda que tantos. Entendendo que somos, também, espelho do outro, e que refletimos nas outras pessoas aquilo que está dentro de nós. O mergulho é pra dentro, porque é sempre sobre nós, mesmo quando sobre o outro. Sartre disse "o inferno são os outros", e só é assim porque nos vemos e somos tanto no outro, assim como o outro é em nós. Um reflexo de nós, um reflexo de quem está a nossa volta, numa dança às vezes caótica, mas sempre bonita. (Todas as fotos da série são autorretratos produzidos durante o período da pandemia e do isolamento social.)