José Roberto Bassul  |  Brasília, DF

O sol só vem depois

“O sol só vem depois” é o refrão de “A ordem natural das coisas”, música de Emicida. A canção aborda as dificuldades na vida de quem mora nas periferias e sai para trabalhar ainda de madrugada. E valoriza as singelas relações de afeto que a noite abriga. Expõe assim as injustiças do mundo sem se desfazer da poesia. Feitas (quase todas) durante a pandemia, as fotografias desta série também adotam um tom distópico. São imagens de elementos urbanos que evocam sonhos perdidos. Reflexos das circunstâncias em que, individual ou coletivamente, enfrentamos perdas, derrotas, frustrações, desencantos, medos. Foram utilizados recursos simples na própria câmera, como subexposição, desfoque ou aplicação de elementos físicos sobre a lente. Na edição, vinhetas e granulação foram acentuados e as tonalidades, divididas. Praças e parques abandonados, quadras de esporte sem uso, ruas vazias, moradas demolidas, caminhos escuros e incertos são permeados por certo lirismo, por réstias de luz. Como se as noites soubessem que o sol só vem depois...