Juliana Pacini Pena  |  Niterói, RJ

Consciência afetiva

Há 49 ano atrás, meu avô e minha avó, mudavam-se com minha mãe e tia, para uma propriedade rural, com aproximadamente seis mil metros quadrados, onde viveriam uma rotina mais próxima da natureza, tirando parte do sustento da terra, das plantações e criações de animais. Para a casa em que eles moravam meu avô sempre teve planos de obra - construir um segundo andar ou apenas amplia-la -, o que nunca aconteceu. Com seus 150m² a casa colonial em que eles viveram era branca por fora e por dentro, tinha cimento queimado na sala verde e azul nos quartos, ambos feitos pelo meu avô. Uma cozinha comprida com janelões, que tinha saída para varanda frontal, que ligava cozinha e sala de estar, que também tinha grandes janelas na lateral, com porta na varanda e um corredor, ligando as portas dos quartos e do banheiro de ladrilhos e louças azuis. Foi ali que meu avô morreu. E a história dessa casa, e da relação dela com a minha família, pode ser dividida em duas partes, antes e depois da morte dele. Anos depois da mudança meu avô é encontrado morto no banheiro, acometido por um infarto fulminante, ele deixa para trás mulher e filhas apaixonadas e dependentes dele, da rotina e da presença. Os anos passam, as rotinas se ajustam a nova realidade, algumas árvores se mantem dando frutos, os porcos e coelhos foram todos vendidos, os lagos abandonados e os galpões, aos poucos, ressignificados em depósito. Mas aquela ainda era a casa onde meu avô havia morrido e assim ela deixa de ser a casa da família para se tornar a casa ao lado. A família se muda aos poucos para uma outra casa no sítio e leva consigo aquilo que consegue carregar. Alguns objetos guardam mais memória do que somos capazes de explicar, e foram eles que permaneceram na casa, aqueles que falavam por si só, que evocavam meu avô apenas por existirem, ficam para trás. Os anos que vem pela frente são para elas de luto de “incorporação dessa morte na vida” (MATOS). Muitos dos trabalhos do meu avô tornam-se vestígios de sua existência, da sua passagem por aquela terra. A casa dos meus avós não tem mais portas ou janelas, partes do telhado despencou, ficaram os buracos que deixam entrar folhas das árvores e terra, criando uma nova superfície pra casa, não é mais possível ver o cimento queimado azul nem verde. Fui a criança que cresceu nesse cenário, ouvia as telhas da casa despencarem e alimentava uma curiosidade sem fim por aquela casa. Com seis anos convoquei meu irmão mais novo, Luca, a uma expedição pela casa. Lembro de vermos livros, revistas, discos de musicas infantis em italiano, bonecas e objetos de louça e gesso largados pelo chão e bancadas. As camadas de folhas e terra escondiam algumas coisas, nos convocavam a uma pequena escavação onde encontramos uma maleta. Uma caixa de madeira com alça, cheia de tubinhos do que achamos ser tinta, - já que não conseguíamos ler as palavras em italiano gravadas no rótulo. Não me lembro bem como começamos a brincadeira, mas lembro que passamos todas as tintas no corpo e depois procuramos nossa mãe para mostrar. Os tubinhos coloridos eram tinta óleo, trazidas da Itália pelo meu avô, que pintava e planejava seus barcos com elas. Minha mãe nos contou que elas estavam guardadas na casa esperando. Sem se dar conta ela nunca me explicou pelo quê – ter esperança, não agir, não tomar decisões a respeito, não desistir daquilo que significava -, e é sobre isso que essa serie se desenha. Na minha curiosidade de criança, nas coisas que se desfazem e nas camadas dessa história, como todas refletem em mim a dor e o luto. Na casa deles desfazem-se vestígios de memória, “o passado está presente nos resíduos, mas ao mesmo tempo não está”(HUYSSEN), a maleta sem as tintas hoje é terra, eu sou o reflexo da dor da minha avó na mesma medida que sou a imagem de dor pela perda dela.