Bárbara Moira  |  Fortaleza, CE

Raízes

Sempre nômade. Desde a infância de lugar em lugar, que nunca foram pontos de acolhimento e muito menos mereceram o nome de lar. Nunca tive arrimo e talvez não saiba como ser arrimo-próprio; dando voltas e voltas ainda me encontro em um anti-lar. Trago em mim os mesmos calos e as mesmas cicatrizes que não gostaria de trazer; mas as violências que me atravessaram são as que forjam minhas narrativas e a minha dor-penitência de ser mulher, envolvendo minha forma de ser e estar no mundo. A romantização da convivência familiar, principalmente no atual contexto pandêmico, acaba por ocultar a precariedade desses laços e seus desdobramentos violentos. No Brasil, só o crime de violência contra as mulheres, segundo a Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos, cresceu cerca de 28%, estimando-se que ainda há subnotificação, dos casos. Além das mulheres, outras minorias ou pessoas em situações vulneráveis e de dependência econômica-afetiva como LGBTs, crianças, adolescentes e idosos; estão mais expostos a um ambiente tóxico familiar que lhes acarreta adoecimento psicológico ou risco de vida. A pressão de um maior tempo em casa, o estresse econômico e o próprio medo da pandemia são alguns dos fatores que propulsionam esse aumento de casos. Como forma de desvelar essa realidade eclipsada pelo contexto do isolamento social, assim surgem as fotografias construídas no período do lockdown, que tensionam a relação da impossibilidade do distanciamento do ambiente adoecedor e trazem para debate essa vivência de muitos(as) brasileiros(as).