Ricardo Pimentel  |  Rio de Janeiro, RJ

Reflexões fotográficas da minha arqueologia

A visão só é possível pela existência da luz. A Fotografia também. E ambas, além dessa dependência, captam as porções que refletem da matéria. Porém, muito mais do que reflexos de natureza física, são as reflexões simbólicas produzidas pela luz que fizeram da Fotografia a principal transmissora de informações visuais, ao menos ao longo dos últimos 170 anos. Mas ainda que tenham se mostrado extraordinários instrumentos de memória, as fotografias só se consumam quando dispomos de aparelhos tecnológicos. São eles que intermediam as relações com nossas percepções e devem ser operados de maneira competente, caso contrário as imagens estarão irremediavelmente perdidas. Ao longo de sua história, a Fotografia vem contando com enorme volume de aparelhos. Inicialmente, todos de grandes formatos, eles foram progressivamente sendo miniaturizados, ampliando sua portabilidade e capacidades tecnológicas, para que pudessem atingir públicos cada vez mais amplos e variados. Até chegarmos ao momento mais disruptivo de sua história, com o lançamento dos processos fotográficos digitais. Nele, pela primeira vez desde seu surgimento, os suportes rígidos que imperaram nas fotografias como matrizes de seus registros e cópias foram suprimidos, substituídos pelos intangíveis arquivos eletrônicos. E com as câmeras acopladas a smartphones, o sonho de popularização da Fotografia acalentado por alguns de seus pioneiros, efetivamente aconteceu. Sou um imigrante digital. Tal qual meus contemporâneos, fui educado fotograficamente pelos rigores das películas, que exigiam que quase tudo fosse resolvido num único suporte. E como eles, hoje tento me adaptar a instantaneidade, às fragmentações absolutas e às extraordinárias possibilidades de retoques e trucagens que o digital oferece. Usávamos as câmeras como espelhos que captavam reflexos emanados do mundo que nos circundava, apontando-as para fora de nós mesmos. E agora, em meio à sociedade do espetáculo, os espelhos estão voltados para dentro das cenas e os fotógrafos já não se satisfazem em estar por trás dos aparelhos, querendo fazer parte das próprias imagens. Quando a digitalização tomou conta do cenário, por conta de minha inércia, não me desfiz dos equipamentos que usava até então e, fazendo alusão ao jogo de cartas infantil, por um bom tempo achei que tivesse acabado com muitos “micos pretos” em mãos. No entanto, a fotografia em películas resistiu e todos os meus antigos equipamentos voltaram a ter vida, pois apesar dos altos custos, podemos encontrar insumos para todos eles. Além desse retorno, a lógica e as práticas do estúdio do século XIX vêm sendo revividas em pleno sécuo XXI e ainda que já estivessem sendo aplicadas a pleno vapor para atender às demandas do comércio eletrônico crescente, elas se intensificaram agora com os “home studios”, durante a reclusão. Parte dessa ressurreição eu procurei mostrar nesse ensaio, num trabalho de arqueologia pessoal produzido especialmente nesse momento, quando revirei armários e arquivos em busca de elementos que juntos conferissem sentido a alguns dos reflexos e reflexões que esses equipamentos me ajudaram a produzir ao longo de minha longa trajetória, fotografando-os com equipamentos icônicos da contemporaneidade, que aparecem por dentro e por fora das cenas, mostrando algumas ressignificações e representações da atualidade, para prestar reverência e respeito à arte que tem dado sentido à minha existência.