marcelo correa  |  rio de janeiro, RJ

rosto

“ A linguagem é essa apropriação que transforma a natureza em rosto” Giorgio Agamben / Essas imagens foram feitas em períodos e espaços diferentes e seguem surgindo quando são relacionadas em novos conjuntos, como o que proponho aqui. As imagens do interior de casa e da máscara pendurada na planta de esquina foram feitas durante a pandemia. Há uma vontade de estar em algum lugar da sensação que se aproxime de uma poética e se distancie de uma documentação. Ainda que essa divisão possa ser apenas ilustrativa em sentido geral, talvez me ajude a dizer, pontualmente aqui, que as imagens não estão submetidas a algum tema ou intenção anterior à própria conversa, que desejo inicialmente mais livre a partir dos encontros das possíveis imagens de um conjunto. A cor é um elemento fundamental nesta insistência com a imagem e me ajuda no reconhecimento do que vem. Tenho cada vez mais interesse em cruzar imagens de interiores com exteriores. Propor esta dobra, esta aproximação do aparente de um exterior em uma interioridade, essa não separação, esse não isolamento, até algo outro trazido pelas imagens. Me interessa imagens do cotidiano, banais até e também imagens de vizinhanças que passo repetidamente. Mas há sempre, ainda que talvez não se apresente aqui, um canal de surpresa para outras possibilidades de entrada e distâncias. De forma geral são imagens com poucos elementos. Aqui há a exceção da imagem “do porco no rio”. E, ainda que não seja possível demostrar aqui, esta imagem com seu tamanho maior e diferenciado das demais e seu excesso de elementos se tornou a principal no conjunto. Ela me ajuda a conectar diretamente com o tema proposto pelo concurso, uma relação direta com reflexo, com Narciso aproximado com questões urbanas, com ecologia, com o consumo, mas não só. Espero sempre que algo chegue para mim e que eu não vi. Por isso também é tão bom exibir e mostrar. Para aprender com os movimentos das imagens a partir dos outros e da continuidade da convivência com o trabalho. Por esses dias percebi um passarinho nesta imagem e o quão importante é o porco para me mostrar a profundidade do rio ou desta sensação de caminhar nesse espelho d’água. Este ajuntamento nasceu com esta imagem bem maior que as outras. Sendo as outras participantes como fragmentos satélites que se relacionam em um movimento que pode ser tanto de dissipação, distanciamento, como de aproximação concentração. Imagens que despertem a dúvida do movimento do instante também me chamam, olhar e não saber exato se, subindo ou descendo, pegando ou jogando, entrando ou saindo. Uma vontade de ficar um pouco mais na imagem. Me insiste sempre um lugar que acredita no precário e no cruzamento entre certa desordem e alguma ordem em relação. Acho importante repetir esta palavra: Relação. Essa conversa íntima entre as forças das imagens e de quem olha. / “ Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto É que Narciso acha feio o que não é espelho E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho Nada do que não era antes quando não somos mutantes “ Caetano Veloso / “ os olhos, por enquanto, são a porta do engano” Guimarães Rosa no conto O espelho / “O rosto é o ser inevitavelmente exposto do homem e, também, o seu próprio restar escondido nessa abertura. E o rosto é o único lugar da comunidade, a única cidade possível. Isso que, em cada singular, abre ao político, é a tragicomédia da verdade em que ele recai já, sempre, e à qual deve retornar desde o início. Isso que o rosto expõe e revela, não é qualquer coisa que possa ser formulada nessa ou naquela proposição significante, nem mesmo é um segredo destinado a restar para sempre incomunicável. A revelação do rosto é a revelação da própria linguagem” Giorgio Agamben / “Os rostos concretos nascem de uma máquina abstrata de rostidade” “A máquina abstrata surge quando não a esperamos, nos meandros de um adormecimento, de um estado crepuscular, de uma alucinação, de uma experiência física curiosa…” Deleuze e Guattari / “Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.” Clarice Linspector em O ovo e a galinha / “ lá vou eu em meu eu oval” Palíndromo de Mariana Wisnik / Aproveito para indicar que este conjunto de imagens é um políptico (o que chamo ajuntamento ) e caso seja selecionado posso apresentar a vocês a montagem. agradeço a todos os envolvidos.