Erica Modesto  |  Rio de Janeiro, RJ

Kintsugi

"Viver é um rasgar-se e remendar-se". A frase de Guimarães Rosa resume a sensação que muitos de nós vem experimentando de forma perene nos últimos tempos. A partir desta sensação de partir-me e ser obrigada a me refazer constantemente surgiu a série de autorretratos Kintsugi. A tradicional técnica japonesa de remendar peças de cerâmica com ouro e outros metais nobres foi a inspiração para o visual do trabalho, tanto aquele que contém interferências em colagem quanto nas fotos sem intervenção que compõem a série. Fragmentos de mim mesma na forma mais distorcida, quebrada, exagerada. Reflexos sombrios que sobrepõem uma imagem, investigando os padrões de beleza estabelecidos por filtros digitais e almejados na vida real a partir de intervenções estéticas. O exagero, a falta de limites entre o belo e o patológico, o esgotamento mental presente enquanto se busca a juventude prolongada estão presentes no trabalho. Está presente também o isolamento, o ver e ser visto através de um vidro tão típico dos basculantes que, ou distorcem a realidade ou nos deixam ver o mundo através de frestas. O isolamento social nos colocou forçosamente atrás dessas janelas móveis. O isolamento emocional nos faz buscar aceitação através do contado digital, em telas pouco generosas com nossas imagens já muito esgotadas e despreparadas para essa (in)adaptação. Descobrimos à força que dentro pode ser um lugar soturno, obscuro, fracionado e tão assustador quanto familiar. Aquele que encontramos ao olhar de perto para esta busca desesperada de uma versão de si mesmo cheia de harmonizações, preenchimentos, músculos paralisados e outras interferências. Mas afinal, quem define o que é belo e o que é feio? Em que corte este limite é atravessado? Será que aquele que nos olha enxerga apenas a distorção ou é capaz de enxergar que aquilo que está quebrado em nós pode ser um atalho para as fragilidades que nos fazem tão preciosos e únicos?