Isabel Abreu  |  São Paulo, SP

Noite sem fim

Na minha insônia até que os olhos se fecham. Problema é o coração, é ele que não dorme. sergio vaz Quais os reflexos imediatos deste período abominável? Como lidar com estes tempos dolorosos e épicos? Como materializar, de alguma maneira, a angústia difusa desta noite sem fim? O que fazer com tanto tempo, tanta ausência, tanto medo? Como manter a cabeça erguida? Estas questões não se impuseram de imediato. Elas passaram a me acompanhar quando percebi que minha estadia aqui começava a demorar. Mas o tempo parou. E deu tempo de perceber o desgaste que as palavras sofreram. Tão desgastadas que os sentidos se perderam e sobrou o silêncio. E sobrou a noite. O tempo, quando parou, era noite. Tudo isto resultou neste projeto: paisagens míopes, frutos de um silêncio intranquilo, daqueles quando o pesadelo tira o fôlego. E você não acorda. Este lugar pode ser aqui, aí, não importa. Ele lida com paisagens interiores, percebidas nesses tempos suspensos, antes que virem um borrão escuro na memória. Vago entre o por do sol e o nascente para registrar o que há pelo caminho e, não raro, sou surpreendida pelo que parece ser. Desta procura, alguns resultados você vê agora. Há muitos mais moradores no meu quintal do que podia imaginar. A estes, peço licença pelo incômodo. E o milho começa a ser colhido. Este projeto teve início em março de 2020 e, numa situação ideal, será encerrado quando o último brasileiro for vacinado.