ANA CLARA DA VEIGA MIRANDA  |  Niterói, RJ

Albedo - reflexos do feminino

Um tempo dilatado, fugidio e feminino que agora assume suas formas improváveis e suas fases impossíveis ao olhar cristalizado e civilizatório de uma era solar, mas não por isso mais luminosa. As representações arquetípicas do sol e da lua, como masculino e feminino, orientam nosso tempo interno e externo, emocional e cronológico, mas não ainda de forma dinâmica e equilibrada. Albedo (do latim albus: branco) é a quantidade de luz refletida por uma superfície, o poder de reflexão de um corpo. As fases da lua são o resultado dela não ser um corpo luminoso, mas iluminado pela luz do sol ao longo de seu movimento, da sua dança cósmica de translação ao redor da Terra. O movimento da lua e da vida como ciclo finito, mas ao mesmo tempo constantemente renovado, é visível a olho nu ainda que bastante ignorado pelo nosso olhar fixo, muitas vezes incapaz de se perceber também finito diante da natureza personificada no feminino pouco refletido, onde o movimento de abstração faltante seja talvez o próprio coeficiente de reflexão de nossos corpos humanos, mas não tão luminosos. Como fotógrafa dos palcos e espetáculos artísticos íntegro meus conhecimentos de dança, teatro, música e, através da técnica fotográfica de lightpainting, crio esta série autorial no ano de 2020 onde, durante meu período de isolamento e pelo fato de o objeto da minha fotografia tornar-se impossível, observo o palco-mundo através da minha janela trazendo luz ao movimento do tempo e dando espaço para o nascimento de uma nova percepção sobre a magia possível do olhar para um tempo Hamletiano ‘fora de seus gonzos’, enlouquecidamente saudável, ao se deparar com suas nuances de espera, equilíbrio, divisão, integração, engendramento, vertigem, alquimia, solitude e comunhão, onde a conquista do meu próprio tempo é sinônimo de liberdade. "Eu me pergunto: se eu olhar a escuridão com uma lente, verei mais que a escuridão? a lente não devassa a escuridão, apenas a revela ainda mais. E se eu olhar a claridade com uma lente, com um choque verei apenas a claridade maior." (Clarice Lispector)