Anderson Luis Coimbra Pascoal  |  Itatiba, SP

Babel

“Os olhos não vêem coisas mas sim figuras de coisas que significam outras coisas” A frase de Italo Calvino, em Cidades Invisíveis, ilustra muito bem a cerne do ensaio "Babel", um retrato desse momento de pandemia em que o confinamento e isolamento social se fazem mais do que necessários. A fotografia de rua, talvez uma das tradições mais antigas na história do meio, de mestres como Atget, Kertész, Bresson, Koudelka, entre tantos outros, se torna outra nesse momento. Percorrer (ou não) as ruas passa a ganhar novos significados. Na impossibilidade desse caminhar mais natural e espontâneo, surgem adaptações e novas possibilidades do criar. Fazendo uso de programas de mapeamento fotográfico de ruas, cria-se uma saída possível para um pseudo contato com o mundo externo. Mundo esse passado, que não sabemos o quanto dele estará lá quando a pandemia terminar. Caminhar virtualmente pelas ruas e tentar apreender dessas imagens pré concebidas, a atmosfera da rua, do caos e do acaso. A significação e a construção de uma cidade inventada, de um “não lugar”, se deu por meio de cortes e sobreposições de imagens da tela de um computador. Sair para o mundo e, ao mesmo tempo, permanecer resguardado em casa. Olhar para a realidade cotidiana das grandes cidades, que não nos é mais presente, é perceber que o espaço urbano se comporta de maneiras muito similares, não importando se estamos em São Paulo, Buenos Aires, Madri, Londres ou Nova Iorque. Uma metrópole é um lugar em contínuo processo de dissolução. Nunca passamos no mesmo lugar duas vezes, tudo flui e a mudança é constante. Há sempre uma casa que foi destruída, as pessoas nas ruas, um edifício em construção, nada permanece. O planeta se torna cada vez mais cidade, em uma velocidade frenética que não nos possibilita mais assimilar e entender todas as suas possibilidades. Vivemos em um mundo fragmentado e amorfo e, nesse momento, em suspensão. Caminhar por imagens que registraram um passado não tão distante, mas já tão diferente, e buscar ali novas construções possíveis para caminhos futuros, misturando o ontem, o hoje e um emaranhado de sonhos.