Helena Rubano  |  São Paulo, SP

Meus reflexos artísticos

Uma série que surgiu da paixão pela observação dos reflexos e da dimensão ilusória que é criada quando se une uma realidade ao seu respectivo reflexo. É uma confusão mental encantadora, por ver se formar, diante dos nossos olhos, um novo mundo. Uma dimensão que ultrapassa as leis da física da nossa realidade. Mas que às vezes também nos ajuda a compreender o mundo no qual vivemos. Nos reflexos é possível enxergar uma cidade contida num ônibus e um ponto de ônibus no topo de um prédio. Prédios sobrepostos a postes de luz, carros e às diversas facetas do ambiente urbano. Uma vidraça pode nos permitir, a partir do reflexo simétrico, ter olhos para uma geometria que a própria natureza carrega. O que é realidade e o que é reflexo? Aliás, a imagem, até então chamada de “ilusória”, que a união desses dois (reflexo e realidade) causa não pode representar o mundo em que vivemos às vezes até melhor do que a nossa própria visão da realidade? Uma figura humana carregando uma maleta de escritório, saindo de um prédio empresarial e indo em direção ao “vale do desemprego” soa familiar com a situação pandêmica do Brasil? E em que medida podemos pensar no "vale do desemprego" como reflexo de ações (e não ações) de uma realidade que ocorreu em um tempo passado? Nesse sentido, o vale do desemprego pode ser reflexo e realidade da atual sociedade brasileira, simultaneamente. Mas um reflexo tem muitas formas de ser enxergado. Algumas das definições que o Google dá sobre a palavra são "aquilo que reproduz alguma coisa; cópia, imitação”; e "o que evoca a realidade de maneira pouco precisa”. Ou seja, a partir disso, pode-se dizer que o reflexo não é o que chamamos de verdade. O reflexo está mais atrelado à imitação, à ilusão, à mentira. Conforme Pablo Picasso, “a arte não é a verdade, a arte é uma mentira que nos ensina a compreender a verdade”. É aqui que começamos a relacionar o reflexo com a arte; pela relação que ambos têm com a realidade. E conforme Lukács, “concebemos a arte como um modo peculiar de manifestar o reflexo da realidade, modo que não é mais que um gênero das relações universais do homem com a realidade, em que aquela reflexa esta." (LUKÁCS, 1982, p.21). Por isso, esta série nada mais é do que um reflexo artístico meu. Um reflexo também pode ser definido como "uma reação involuntária, sensorial ou motora, a um estímulo exterior”. Sendo assim, a minha reação involuntária, o meu reflexo, é olhar para a luz refletida nos ambientes urbanos e registrá-la, a fim de propor e expressar uma reflexão em forma de arte e muitos reflexos.