Juliana Jacyntho  |  sao paulo, SP

onde jaz meu céu estrelado

Cecilia Salles destaca em seu livro "Gesto Inacabado" que "ninguém que está reconciliado com a realidade cometeria a ambiciosa loucura de inventar realidades verbais"[1]. Que realidade é essa que nos aflige e serve de gatilho para inventar realidades poético-visuais através da fotografia? Se uma pergunta fosse, onde jaz meu céu estrelado? Atafona, a praia com nome de moinho de vento. O presente trabalho conta a história de desaparecimento de Atafona, lugarejo à beira da praia, no norte fluminense, onde a autora cresceu e que vem sendo tragado pelo mar por força do fenômeno da "transgressão marinha", nos últimos 70 anos. Para falar de um lugar da memória, intangível, não palpável, porém muito vivo no inconsciente, o trabalho tensiona a conversa de um grupo heterogêneo de imagens, desde imagens da natureza do lugar, que vem sofrendo com o assoreamento do Rio Paraíba do Sul e o avanço voraz do mar a azulejos arqueologicamente garimpados ao longo do projeto em 'cemitério de azulejos', similares aos encontrados nas ruínas existentes na beira da praia do lugar, e nas paredes ainda de pé da casa da família da autora, na tentativa de recriar paisagens que não mais existem. Como fotografar o que não existe mais? O presente trabalho intenciona tocar no arrebatamento e perplexidade sentidos diante daquilo que não está mais lá, da desaparição, elegendo "imagens-choque", nascidas dos “traveses” ou da “sombrografia” para nos fazer lembrar que não importa a destruição do entorno, a delicadeza e a sutileza existirão/resistirão para sempre na memória e no inconsciente de quem naquele lugar viveu. Ou, ainda, como afirma o filósofo e historiador da arte, Georges Didi-Huberman, “nunca poderemos dizer: não há nada para ver, não há mais nada para ver. Apesar da destruição, da supressão de todas as coisas. Convém saber olhar como um arqueólogo”. Onde jaz meu céu estrelado é um trabalho sobre os trabalhos de resistência da memória. [1] Salles, Cecilia Almeida. Gesto Inacabado, São Paulo: Intermeios, 2013, p. 41 [2] Didi-Huberman, Georges. Cascas, São Paulo: Editora 34, 2017, p. 61. Ano de produção: 2016 - 2020 Técnica: fotografia digital, fotolivro publicado pela Fotô Editorial em março de 2020.