Priscylla Nunes  |  Campo Grande, MS

Dispneia Social

Vinde a mim os que estão cansados. Eu não prometo conforto, mas uma reflexão sobre tempos sombrios em que os relógios convencionais perderam seus espaços e o tempo passou a ser calculado pela quantidade de mortos e infectados. Eis o reflexo de um problema social escancarado pela pandemia: Falhas na comunicação. Assim como uma imagem refletida pelo vidro, o reflexo pode trazer sua versão invertida e sua falta de coerência com a realidade pode estar ligada a incapacidade do sujeito para compreendê-la ou por que aquele que a emite não traz os signos a que se está acostumado, trazendo o reflexo do medo como um ato involuntário. Alternando-se a sua ‘Santíssima Trindade’: ora política, ora científica, ora religiosa, resultou-se uma polarização no momento em que mais precisou-se de união e esqueceu-se de que se tratava de ‘um só corpo’. As ‘Palavras da Salvação’ estiveram fragmentadas, falsificadas. Por vezes não chegavam a tempo e quando chegavam, eram seus destinatários que não estavam prontos. Traduziu-se o que os jornais de diferentes países disseram a respeito do Brasil, mas não se conseguiu alertar aqueles - com quem se convivia - sobre os cuidados mais básico. Problematizou-se a vacina, suavizou-se o lockdown com feriados, questionou-se Direitos Fundamentais, associou-se mensagens divinas à própria conveniência. Cumpriu-se regras estabelecidas por mãos invisíveis, que trouxeram em seus imperativos categóricos regras inquestionáveis, palavras duras em momento de consolo e desprezou-se o poder da comunicação em gerar conexão entre os seres. As pessoas se distanciaram fisicamente, isolaram-se e aos poucos foi-se perdendo a voz, como forma de proteção, pois um simples desabafo passou a ser categorizado por ideologia política. O combate ao vírus está caminhando para o combate ao próprio ser. Deve-se deixar a oração sem sujeito para a gramática, pois a comunicação está além de seu domínio e deve-se recordar dos sujeitos ocultos por trás do número de vítimas. Se entre especialistas, cientistas, pais, mães, mídia, não se conseguiu emitir a mensagem que salvasse vidas, peço licença para assim usar aquela – de mais de dois mil anos –numa tentativa de resgatar uma maneira de enxergamos o próximo. E no ímpeto de não morrermos sufocados pelo não dito, trago em um suspiro, um olhar humano e um pedido – não a Deus - mas aos homens: Tenhamos piedade de nós.