Laura Pietro Biasi  |  Florianópolis, SC

Janelas

Estamos tão, tão perto fisicamente, mas muito, muito distantes. Paredes nos separam, e espaços vazios de céu e ar, e, também, olhares que se cruzam, mas não se encontram, e nunca se encontraram em situações que fariam nossas vidas mais próximas. Ouço zunidos de gente conversando, mas não entendo as palavras. Ouço barulho de latas se abrindo, é sexta-feira à noite, imagino que seja uma cerveja gelada. Passam motos e carros e as conversas indecifráveis continuam, mas agora abafadas por barulhos dessas motos e desses carros. Ouço a segunda lata sendo aberta e, escutando assim, de longe, parece que a vida do outro é bem mais interessante que a minha. As vidas que seguem, porque dentro de casa a vida sempre segue. A não ser a da moça que mora sozinha e sua janela dá de frente para a minha escrivaninha e há alguns dias não acende a luz da sala. Parece que antes não havia tantas luzes acesas em tantas janelas quanto há esta semana. Menos a dessa moça que sempre está com a luz acesa, a não ser esta semana. Ontem à tarde escutei gritos e gemidos como de quem bate com força em algo em movimentos repetidos. Olhei pra fora preocupada, um homem estava no meio de uma aula de luta, na sala de casa, de frente para a janela. Às vezes eu queria ser amiga da moça que está sempre de frente pra minha janela, sempre vi ela com uma taça de vinho e com um cigarro, mas há dias que ela não aparece e nem acende a luz da sala. Dá a impressão de que a vida dela seguiu em outra casa. Às vezes, queria também viver em outras janelas, habitar um dia em cada sala. Talvez, assim, eu não cansaria de ficar sempre em casa e porque, também, as outras janelas parecem bem mais interessantes que a minha agora.