Luisa B. Lima  |  RIO DE JANEIRO, RJ

Reflexões do (extra)ordinário

Ao longo dos anos venho utilizando a fotografia como recurso em minhas pesquisas em artes visuais, procurando o que pode escapar às narrativas tradicionais: registar paisagens urbanas através dos vidros sujos dos ônibus; sombras de árvores e pessoas; reflexos em poças d’água, carros, vitrines, carrocinhas de churros. Reuni para o 10º Prix Photo Aliança Francesa três séries de fotos abordando reflexos. Acontecimento na carrocinha de churros ou O sonho de um vira-latas (2001): foi uma das primeiras séries que realizei, na ilha do Fundão, usando uma câmera fotográfica descartável. O resultado ficou inusitado e onírico: podendo remeter à atmosfera de circo e parques de diversões. Mas que também me lembram as distorções onduladas que acontecem nas pinturas de Van Gogh. Auto-retratos da transição (2009-2017): Reúne alguns retratos que fiz solitariamente ao longo dos anos antes de sair do armário. O auto-retrato tem um valor diferenciado para mulheres trans como eu: uma forma de refletir sobre nossos desejos e sonhos. Reflexos do subsolo (2016-2020): Durante alguns anos, antes da pandemia, registrei em minhas viagens de metrô momentos de espelhamento impermanentes e fantasmagóricos, buscando uma espécie de ordem clássica e simétrica de forma arbitrária e fugaz. Gosto da estética borrada e de baixa resolução das câmeras descartáveis e dos celulares. Uma expressão punk, bruta e barata pode demonstrar que para fazer arte não são imprescindíveis meios sofisticados e inacessíveis. O que pode levar também a uma consideração ética: refletir sobre como o nosso modo de olhar pode transformar a nós mesmas e ao mundo.